Qual de mim morreu hoje?

Olho pela fresta da árvore e vejo os raios solares fugindo por entre os galhos. O vento sopra em meu rosto e eu fecho os olhos por alguns segundos, continuo andando. No caminho, vejo todo tipo de pessoa, uma multidão mesmo.

Dentro do transporte, nada muda, mas a paisagem e as pessoas sim. Havia uma senhora que ficou em pé a viagem inteira enquanto uma moça fingia que não a via, um senhor com as mãos pequenas que jogava no celular, ou o que achei mais engraçado, um cara que passou metade do percurso jogando no tigrinho. O mais bonito foi a tia de uns 60 anos, exausta, respondendo o filho no WhatsApp. 

Enquanto descobria o mundo, sentia-me apático.

Superficialmente é um vazio, mas internamente a sensação é uma vontade desabar, de bater o pé, de gritar e de ficar deitado por horas — ou até mesmo por dias. É isso a vida? Esse amontoado de emoções complexas demais para serem digeridas em uma viagem de ônibus? 

O mundo poderia acabar e eu não estaria nem aí, ou eu mesmo poderia me jogar na frente de algum carro quando descesse na minha estação.

Mas não, é trabalho demais. O motorista do carro que fosse me atropelar ficaria traumatizado, e se ele tivesse depressão? Meus pais chorariam o resto da vida e ainda teriam que gastar com o enterro, ou com o que sobrasse de mim. As pessoas pensariam "meu deus, isso vai fazer eu demorar ainda mais pra chegar em casa". 

Na perspectiva de um morto, parece fácil — mas é só isso. Morrer dá trabalho, viver dá trabalho, e eu ainda não aprendi a fazer o segundo. Afinal, morro todos os dias. 

Sinceramente não sei que versão minha pensa nisso, qual delas sobreviveu? Quem se matou? Quem foi morto? É complicado ser testemunha de um crime contra si mesmo.

Tem também uma devota, usando aqueles terços no pescoço, ela parece satisfeita. Isso me lembra que ultimamente tenho achado fútil orar pedindo por coisas materiais. Deus tem galáxias e incontáveis outras coisas pra cuidar, por que dar mais trabalho pra ele? Então fecho os olhos e agradeço.

A viagem segue e a paisagem continua mudando, algumas pessoas agora estão dormindo. Todos tivemos um dia exaustivo, talvez uma semana, ou mesmo um ano e provavelmente uma vida inteira.

Mas aqui estamos nós, sem esquecer de respirar ou de apreciar as coisas mais insignificantes da vida.

O ônibus chega, e eu desço. 

Já não sou o mesmo de quando entrei, e agora? Qual de mim morreu dessa vez?

— Rocco


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